Tucuxi e Cor-de-Rosa transformam o Lago dos Botos em palco de encantamento no Sairé 2026

Neste sábado (20), a tradicional disputa dos botos, em Alter do Chão, em Santarém, no oeste do Pará, mergulhou nas raízes da cultura amazônica para contar histórias de ancestralidade, identidade, espiritualidade e preservação.

9/20/20263 min read

Sob as luzes da arena e diante de um Lago dos Botos que parecia guardar, naquela noite, os segredos mais antigos da floresta, Tucuxi e Cor-de-Rosa fizeram um espetáculo de beleza, memória e encantamento. Neste sábado (20), a tradicional disputa dos botos, em Alter do Chão, em Santarém, no oeste do Pará, mergulhou nas raízes da cultura amazônica para contar histórias de ancestralidade, identidade, espiritualidade e preservação.

Primeiro a entrar na arena, o Boto Cor-de-Rosa abriu a noite com “Tapajônica: História Não Contada”. Em uma apresentação marcada por cores, personagens e símbolos da cultura amazônica, o grupo voltou o olhar para a história dos povos tradicionais e para a relação profunda entre o homem, a floresta e as águas.

Era como se cada alegoria ajudasse a desenterrar uma história guardada há gerações. O espetáculo levou para o Lago dos Botos personagens que povoam o imaginário amazônico e exaltou a cultura de Alter do Chão, sem deixar de fazer um alerta sobre a necessidade de preservar o território e seus recursos naturais.

Meses de preparação foram transformados em alguns minutos de emoção diante do público. De acordo com o presidente do Boto Cor-de-Rosa, Thiago Vasconcelos, os trabalhos para a apresentação começaram ainda em março. O resultado foi uma noite em que tradição e espetáculo caminharam lado a lado.

Entre os momentos de maior emoção esteve a estreia da nova Rainha do Sairé, do Boto Rosa. Geovana Vaughan assumiu o desafio de representar um dos símbolos mais importantes da festividade e falou sobre o significado de levar para a arena a história e a cultura de seu povo.

“É um prazer representar um item tão importante com a minha cultura, que conta a história do meu povo”, afirmou.

A Rainha do Artesanato também levou para a arena a força da identidade local, em uma apresentação que celebrou os saberes e fazeres que atravessam gerações e ajudam a manter viva a memória da comunidade.

Depois do Cor-de-Rosa, foi a vez de o Tucuxi mergulhar nas águas profundas da ancestralidade Borari. Com o tema “Iburari, Ocara Sagrada”, o boto azul levou ao público um espetáculo de magia, espiritualidade e resistência, resgatando a história de um território que está na própria origem de Alter do Chão.

Iburari, também registrado em documentos históricos como Ibirarib, está relacionado ao antigo sítio geográfico onde se consolidou o aldeamento que deu origem à atual vila. Para o povo Borari, o lugar ultrapassa a dimensão geográfica: é território de memória, espiritualidade e pertencimento.

E foi justamente essa relação com o território que o Tucuxi levou para a arena.

A encantaria amazônica ganhou corpo em personagens, alegorias e movimentos. O Boto Homem Encantador, interpretado por Breno Tavares, surgiu na alegoria “Yaci, o Encante da Lua”, representando a força da transformação e o mistério do mítico habitante dos rios.

A força das águas apareceu também na Rainha do Lago Verde, interpretada por Lara Taís Borari. Ao lado da alegoria “O Majestoso Pirarucu”, a personagem evocou os encantados que habitam o fundo dos rios e a dimensão sagrada das águas para os povos da Amazônia.

Na Sedução, o Tucuxi buscou na tradição oral de Alter do Chão a inspiração para aproximar dois mundos: o universo das águas e a vida na terra. Foi um encontro entre mito e realidade, entre o que se conta e o que permanece vivo na memória de um povo.

A força da mulher Borari ganhou destaque na apresentação da Cabocla Borari, interpretada pela professora de balé infantil Daniela Tapajós, de 31 anos. A personagem representou a resistência feminina, a preservação da cultura e o vínculo com o território ancestral.

Mas a disputa foi além da beleza das alegorias e da força dos personagens. Nos dois espetáculos, a Amazônia apareceu também como território que precisa ser cuidado. A preservação das águas, da floresta e da vida esteve presente nas mensagens levadas pelos grupos à arena.

Ao fim de uma noite em que o Lago dos Botos foi transformado em palco de encantaria, ficaram as imagens de uma festa que não apenas celebra a tradição, mas também reafirma a identidade de um povo. Tucuxi e Cor-de-Rosa fizeram do Festival dos Botos uma viagem pela memória amazônica — uma viagem em que cada canto, cada dança e cada alegoria pareciam dizer que, em Alter do Chão, a história continua sendo contada pelas águas.

Os dois botos serão avaliados em 16 quesitos: Apresentador, Cantador, Rainha do Sairé, Cabocla Borari, Curandeiro, Rainha do Artesanato, Boto Homem Encantador, Boto Animal, Rainha do Lago Verde, Carimbó, Organização do Conjunto Folclórico, Alegorias, Letra e Música, Ritual, Sedução e Galera.

A apuração dos votos dos jurados será realizada na tarde desta segunda-feira (21), no próprio palco da disputa entre os botos, quando será anunciado o vencedor de 2026.

Crédito das fotos: Botos Cor de Rosa e Tucuxi

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