Primeiro Retiro Espiritual do Sairé fortalece a conexão entre fé e território em Alter do Chão

Encontro teve como tema “Entre a Cruz e a Floresta: A Espiritualidade do Sairé como Caminho de Fé, Memória e Missão” em dois dias de imersão na história, nos símbolos e na espiritualidade de uma das mais antigas tradições do povo Borari

8/31/20263 min read

Alter do Chão recebeu, nos dias 29 e 30 de agosto, o primeiro Retiro Espiritual do Sairé, um encontro dedicado à fé, à cultura e à memória de uma tradição que atravessa gerações. Com o tema “Entre a Cruz e a Floresta: A Espiritualidade do Sairé como Caminho de Fé, Memória e Missão”, o retiro reuniu a comunidade em dois dias de momentos de partilha, em uma imersão na história e na herança cultural do povo Borari sobre o Sairé.

O encontro, realizado pela Coordenação do Sairé, junto ao Rito Tradicional do Sairé, começou com uma acolhida acompanhada por cantos tradicionais e oração, seguida de uma conversa sobre a origem do Sairé como ritual indígena. A herança Borari, a evangelização na Amazônia e o encontro entre a tradição indígena e a fé católica estiveram entre os temas discutidos, trazendo para o centro da conversa a dimensão espiritual que também constitui a celebração.

A programação também abriu espaço para conhecer os rituais que integram o Sairé. Em uma roda de conversa, os participantes puderam compreender os significados do Beija-Fita, da Cecuiara e da procissão ao redor dos mastros. Em seguida, saíram em procissão da casa de barro, onde estavam o Arco do Sairé e a Coroa do Divino, em direção ao barracão, com uma vivência dos saberes tradicionais a partir de práticas como o banho de cheiro, a defumação e as orações do Pai-Nosso e da Ave-Maria.

Além de ser uma preparação para o rito, o retiro criou um espaço para que a própria comunidade pudesse olhar para o Sairé, conhecer seus elementos e refletir sobre os sentidos que cada um carrega. Ao longo dos dois dias, os participantes refletiram sobre as ladainhas, as folias, os passos dados na tradição e os diferentes momentos da celebração, retomando conhecimentos que fazem parte da tradição do povo Borari e que são repassados de geração em geração há mais de 300 anos.

“Nos reunimos para vivenciar um momento inédito e super importante em preparação ao Sairé. Foi uma experiência com o divino, o sagrado e de podermos nos aprofundar mais em nossa história. Foi uma troca com pessoas que vivem o sairé há muitos anos, com histórias que não estão nos livros, mas na vivência e no conhecimento tradicional, por isso foi muito importante reconhecer cada gesto e cada elemento do rito tradicional”, destacou Osmar Borari, coord. da Festa do Sairé.

Um dos momentos do encontro foi a construção do Mastro dos Desejos. Nele, os participantes puderam registrar seus anseios para o Sairé 2026, mas também refletir sobre o que os aproxima dessa tradição, por que fazem parte dela e qual é o chamado que os leva a contribuir para a continuidade desse movimento cultural, que permanece profundamente ligado à identidade do povo local.

Durante a festa do Sairé, a levantada dos mastros marca um dos momentos centrais da celebração. Retirados da floresta, eles carregam o significado de fartura, agradecimento e fertilidade e simbolizam também a permissão para o início da festa. Durante o retiro, o Mastro dos Desejos trouxe esse sentido para uma reflexão sobre o legado que cada pessoa deseja deixar para o Sairé.

“Cada um de nós tem a sua missão dentro da herança que nos foi deixada por nossos ancestrais, ao escrevermos o nosso desejo, não é um desejo de “como eu quero que seja a festa do Sairé”, mas sim um desejo de “como eu quero ser na festa do Sairé”, um desejo de si, de ser mais, de ter a responsabilidade e proteger a nossa história”, destacou Maria Eulália, coord. do Sairé.

O retiro do Sairé, realizado na Escola da Floresta, também foi marcado pela celebração da fartura, que no contexto do Sairé, vai além de ser alimento: representa a generosidade, a partilha e a força da comunidade.

A proposta da coordenação do Sairé é que o retiro passe a ser realizado duas vezes ao ano, criando novos momentos de preparação, reflexão e fortalecimento dos saberes que sustentam a tradição. A iniciativa parte do entendimento de que manter o Sairé vivo também significa conhecer seus significados, compartilhar seus saberes e reconhecer a fé e o território que dão sentido a cada rito.

“Não tenho palavras para expressar minha eterna gratidão por esses dois dias de riquíssimos saberes sobre a nossa cultura e ancestralidade Borari. Foram momentos de muita memória e também de saudade daqueles que nos deixaram esse legado. Saímos ainda mais fortalecidos para seguir com firmeza, responsabilidade e compromisso com a nossa Festa do Sairé, porque somos resistência, somos Borari, somos o Sairé", ressaltou Ana Lúcia, rezadeira do Sairé.

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