Além da comida: oficina em aldeia de Santarém aproxima estudantes de saberes ancestrais
Atividade do projeto Ubuntu Raiz na Aldeia Atodi, no rio Arapiuns, reuniu crianças e adolescentes em uma experiência de culinária afro-indígena, memória e transmissão de conhecimentos entre gerações
10/1/20264 min read


Para os estudantes da Aldeia Atodi, no rio Arapiuns, em Santarém, no oeste do Pará, uma oficina de culinária foi também uma experiência de contato com a própria história e ancestralidade. Alunos do 4º ao 9º ano da Escola Municipal Indígena Nossa Senhora das Graças participaram de uma atividade do projeto Ubuntu Raiz, que reuniu jovens, mulheres, moradores e organizações comunitárias em torno de receitas, ingredientes e saberes transmitidos entre gerações.
Mais do que ensinar o preparo de alimentos, a proposta foi aproximar crianças e adolescentes dos conhecimentos que fazem parte da identidade cultural da comunidade. A oficina trabalhou a culinária afro-indígena como uma forma de preservar memórias e valorizar práticas construídas ao longo do tempo.
Ao todo, 28 pessoas assinaram a lista de presença, mas a equipe estima que quase 40 participantes tenham acompanhado a atividade. Entre os estudantes estavam alunos do Ensino Fundamental, do 4º ao 9º ano, dos turnos da manhã e da tarde.
Os estudantes foram divididos em grupos de aproximadamente dez pessoas, junto com mulheres e homens da comunidade. Eles participaram dos preparos, das receitas e das conversas realizadas durante a oficina.
“Foi como se eu estivesse realmente dando aula a todas aquelas pessoas e principalmente aos alunos, interagindo com eles, fazendo com que eles participassem. Eles participaram mesmo de tudo, das receitas, do preparo, da conversa”, conta Natalina Cardoso, idealizadora do Ubuntu Raiz e responsável pelas oficinas.
Para o projeto, o alimento não é apenas aquilo que chega à mesa. Ingredientes, técnicas de preparo e formas de utilização do que é produzido no território também carregam conhecimentos, histórias e referências culturais.
Uma aula diferente para reconectar com os alimentos
A atividade também contou com a participação de professores e colocou os estudantes no centro da experiência. Para Rondielson Castro, professor de Notório Saber, a oficina representa uma maneira diferente de ensinar e, ao mesmo tempo, fortalecer a cultura alimentar da aldeia.
“Essa oficina vem valorizar a nossa cultura alimentar ancestral que existe dentro da aldeia. É uma aula diferente, que traz uma reconexão com o alimento e também uma reflexão para que os produtos industrializados não tomem conta da nossa alimentação.”
Segundo o professor, a farinha de mandioca teve historicamente um papel importante na economia da comunidade e representa um conhecimento que precisa continuar sendo valorizado.
“A farinha era uma base de renda para a comunidade. E eu espero que isso volte, que a gente possa fortalecer novamente essa produção e fazer com que os nossos produtos, aquilo que é produzido aqui, tenha cada vez mais valor.”
Para os alunos, a experiência também foi marcada pela descoberta de sabores e preparos feitos com ingredientes encontrados no próprio território.
Laís Arapiun, de 10 anos, mora na Aldeia Atodi e participou da oficina. Para ela, aprender a preparar os alimentos tornou a atividade ainda mais especial.
“Eu gostei de aprender a fazer os bolinhos com os ingredientes da terra. Eu amei o doce de manga e o bolinho de macaxeira com os temperos. Eu amei muito tudo, saudável e gostoso, e amei mais o peixe.”
A participação dos estudantes reforça uma das propostas centrais do Ubuntu Raiz: promover o intercâmbio de conhecimentos sobre a cultura alimentar e contribuir para que práticas e saberes transmitidos entre gerações continuem presentes no cotidiano das comunidades.
Para Natalina, esse contato permite que os jovens compreendam que os alimentos também carregam histórias e conhecimentos ancestrais.
“A gente não quer que eles enxerguem a comida apenas como comida. Por trás de cada ingrediente, de cada receita e de cada forma de preparo, existe uma história, existe uma memória e existe a ancestralidade de um povo.”
Mulheres e comunidade na organização
A participação dos estudantes aconteceu a partir de uma mobilização da própria comunidade. A Escola Municipal Indígena Nossa Senhora das Graças se articulou com as associações locais para integrar os alunos à programação.
Também participaram da organização representantes da associação de mulheres e da associação de artesanato. A mobilização evidenciou o papel das organizações comunitárias na construção da atividade e, especialmente, a atuação das mulheres na articulação da aldeia.
A equipe esteve na comunidade um dia antes da oficina para conhecer o local, conversar com os moradores e fazer o convite para a programação. A recepção, segundo Natalina, foi um dos aspectos que mais chamou atenção durante a passagem pela aldeia.
A atividade também foi marcada por momentos de celebração e identidade cultural. A equipe foi recebida pela comunidade com um ritual indígena, cantado em português e também na língua Angatu. Ao final da oficina, a despedida aconteceu com outro ritual, acompanhado pela dança da comida, uma manifestação tradicional realizada pela comunidade.
Atodi foi a última aldeia visitada pelo Ubuntu Raiz no rio Arapiuns. Para a equipe, a atividade encerrou essa etapa do projeto reunindo escola, famílias, mulheres, organizações comunitárias e estudantes em torno da alimentação como espaço de transmissão de conhecimento.
A experiência evidencia a importância de aproximar crianças e adolescentes dos saberes alimentares de seus territórios, permitindo que reconheçam nesses conhecimentos elementos da própria história e identidade cultural.
O projeto Ubuntu Raiz: comida ancestral e tradição na Amazônia é realizado por meio da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB), com recursos do Ministério da Cultura, operacionalizados pela Secretaria de Estado de Cultura e da Fundação Cultural do Estado do Pará.


